06/02/2019

 A Ria de Aveiro, como laguna costeira que é, tem um conjunto de características naturais que constituíram ao longo dos tempos atractivos para o seu aproveitamento sócio-económico e para a fixação de povoados ribeirinhos.

 Desde a implantação de indústrias, que durante muitos anos, laboraram de forma incontrolada, lançando na laguna e sua envolvência toneladas de poluentes sólidos, líquidos e gasosos até uma actividade cinegética igualmente nefasta que conduziu ao decréscimo perigoso de algumas espécies selvagens, a ria de Aveiro sempre conviveu com um regime de marés e por conseguinte com a intrusão de uma cunha salina responsável, entre outras, por uma limitação das áreas agricultáveis.

Com um regime hidrodinâmico que foi sendo alterado ao longo do tempo pelas sucessivas dragagens produzidas nos fundos da sua bacia portuária e da sua barra, os fluxos de maré passaram a ser cada vez mais elevados e a sua acção erosiva cada vez mais intensa não só nas margens dos canais principais como também nas margens dos múltiplos esteiros interiores.

O efeito erosivo sentido no seio da laguna, induzido pelas dragagens, tornou-se ainda mais evidente logo após a dragagem realizada em 1997. Foi precisamente esta operação efectuada nos principais canais da laguna que revelou de imediato um outro fenómeno aparentemente insuspeito e que se traduziu na diminuição da área líquida disponível durante as fases de baixa-mar, contrariando aquilo que seria desejável, nomeadamente para a navegação de recreio.

Se no passado a corrente de deriva litoral era a principal fonte de sedimentos das praias do norte de Portugal e consequentemente para a sedimentação no interior da laguna aveirense, hoje esse cenário está infelizmente ultrapassado, como o demonstra a erosão crescente do litoral. Por esse facto nunca aceitámos a ideia de que os lodos a descoberto na laguna durante a baixa-mar resultem de um aumento das cargas sedimentares depositadas na laguna.

Uma nova operação de dragagem na Ria de Aveiro poderá agravar ainda mais estes três efeitos perigosos, erosão, salinização e diminuição da navegabilidade lagunar. Apesar de ter sido feito um Estudo de Impacto Ambiental (obrigatório nos termos da alínea n), do ponto 10 do Anexo II, do Decreto-Lei nº 151-B/2013) esse estudo não prevê que as implicações neste ecossistema poderão não ficar confinadas a alterações na fisionomia da laguna mas também irão provocar a perda de habitats para a fauna lagunar.

O recente conhecimento de que existirá um estudo (pouco divulgado infelizmente!) de um investigador da Universidade de Aveiro corroborando com dados científicos aquilo que a nossa percepção nos revelou ao longo dos anos dá-nos motivo para contrariar aquele “desabafo” do sr. Ministro do Ambiente feito à comunicação social.

  • Queremos respeito pelas Zonas Húmidas, pois Portugal está comprometido com a aplicação da legislação em vigor e que classifica a Ria de Aveiro como Zona de Protecção Especial (Rede Natura 2000);
  • Queremos intervenções sensatas na Ria de Aveiro, com decisões políticas baseadas em estudos técnicos actuais e nunca em iniciativas imponderadas;
  • Estamos preocupados com a deposição de dragados em cima de sapais, caniçais e vegetação dunar;
  • Estamos preocupados com a diminuição das áreas intertidais, fundamentais para a alimentação das aves aquáticas;
  • Estamos preocupados com a criação de acessibilidade a áreas da Ria de Aveiro até agora sossegadas, como já aconteceu com a instalação de passadiços;
  • Não queremos ver repetir na Ria de Aveiro os erros praticados na Barrinha de Esmoriz, com graves prejuízos para a biodiversidade;
  • Queremos saber as reais motivações das dragagens que vem sendo reclamadas e anunciadas há 40 anos (e não há 20), e agora o foram de novo;
  • Duvidamos que as dragagens tenham como objetivo reanimar a agricultura ribeirinha que sempre conviveu com a salinidade;
  • Não queremos que na Ria de Aveiro e nos seus esteiros seja dada prioridade à náutica de recreio, mas sim à biodiversidade. A náutica de recreio tem espaço de sobra nos canais principais e, nesses sim, poderão ser feitas dragagens pontuais;
  • Se é verdade que a náutica de recreio tem importância para o desenvolvimento local, não é, no entanto, condição sine qua non para a vida na Terra; mas a biodiversidade é!

 Para mais informações: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar. ou Nuno Gomes Oliveira

 A Direção do FAPAS (Fundo para a Protecção dos Animais Selvagens)