COMUNICADO DE IMPRENSA 28/03/2019
 
Foi com enorme espanto que o FAPAS (Fundo para a Protecção dos Animais Selvagens) teve conhecimento da organização das “I Jornadas Internacionais – Sustentabilidade Económica dos Espaços Ordenados e Protegidos”, nos próximos dias 13 e 14 de Abril, promovidas por duas associações de promoção da caça, o Clube Português de Monteiros e o Safari Clube Internacional - Lusitânia Chapter, com o apoio do Município de Arcos de Valdevez, do Ministério da Agricultura/ICNF, do Turismo do Norte e com a anunciada presença do Ministro do Ambiente e do Secretário de Estado das Florestas e Desenvolvimento Rural
 
A extinção da cabra-brava no Gerês ocorreu (para sempre, pois era uma subespécie diferente da que existe hoje) por volta de 1892, devido ao excesso de caça: “os habitantes caçam-na muito, e a carne é tão apreciada, que o caçador que nos vendeu com prazer a pele, não quis ceder a carne.” (LINK, H. F. (1803). Voyage en Portugal).
 
Mas não era só o povo que a caçava para alimentação: O senhor Frutuoso, banheiro das Caldas do Gerês, o “... Mota, diretor da alfândega”, o “José Maria, antigo contrabandista... antigo no sentido de ex, digamo-lo para decoro da presente autoridade fiscal...” e o padre Gaio, de Brufe (Terras do Bouro), “...o verdadeiro caçador dos sítios...” (Montufar Barreiros, 1953) também se dedicavam a essa caça.
 
A cabra-brava regressou a Portugal em 1998 devido à libertação intencional de vários indivíduos existentes num cercado do lado Espanhol; e quem os libertou foi um ambientalista.
 
Durante mais de 100 anos os caçadores portugueses nada fizeram para recuperar esta espécie emblemática do Gerês, antes pelo contrário: de 15 a 17 de Setembro de 1908, 78 caçadores e 100 batedores correram o Gerês para ver se ainda havia alguma Cabra-brava para abater, contudo sem sucesso (revista Illustração Portugueza, 2/11/1908).
Mas ao fim de 20 anos de repovoamento da espécie, já a querem caçar, provavelmente para a levar de novo à extinção, como fizeram em 2002 em Espanha, com o “bucardo”, a subespécie pyrenaica.
 
Trata-se, antes de tudo o mais, de um inaceitável oportunismo!
 
Trata-se da manifestação de uma total insensibilidade quanto aos objetivos de um Parque Nacional, como é a Peneda-Gerês.
Trata-se, finalmente, de um desconhecimento absoluto do que é desenvolvimento local e de como o passeio na natureza, a observação e a caça fotográfica são, de longe, mais mobilizadores e importantes para o turismo, mas sustentáveis e menos depredadores dos recursos naturais.
 
Quem quererá passear nas serranias do Gerês quando souber que estão em uso carabinas de caça grossa, cujo projétil pode atingir quilómetros?
 
Diz o convite que as Jornadas são organizadas “...tendo em consideração [...] a vocação cinegética do Parque Nacional Peneda-Gerês.”. Nós perguntamos: vocação cinegética, desde quando?
 
A vocação de um qualquer Parque Nacional é a conservação do património natural e cultural e o recreio de contacto com a natureza.
 
Mais diz o convite que nas Jornadas participarão “ambientalistas”; quais, pois nem os representantes das associações de defesa do ambiente no Conselho Estratégico do Parque Nacional foram convidados.
 
O FAPAS denuncia a falácia de um dos objetivos desta Jornadas, “... confirmar que os objectivos estratégicos da Conservação da Natureza e dos Habitats (em espaços naturais e protegidos ou fora deles) têm instrumentalmente a Caça como uma ferramenta de gestão essencial.
 
Não, a caça não é nenhuma ferramenta de conservação, antes pelo contrário, vejam-se os múltiplos exemplos, este da cabra-brava, ou o da rola-brava que, depois de quase extinta em Portugal, é agora caçada em safaris no Norte de África.
Ou será que o leilão de uma caçada ao Leopardo (espécie em perigo) no Zimbabué, feito em 9/05/2015 pelo Safari Clube Internacional - Lusitânia Chapter, na Expocaça, em Santarém, também foi “uma ferramenta de gestão essencial” de conservação da natureza”?
 
O FAPAS apela à Câmara Municipal de Arcos de Valdevez para que anule este evento e ao Ministro do Ambiente e ao Secretário de Estado das Florestas para que nele não participem.
 
O FAPAS tem agendadas as suas XX Jornadas sobre Conservação da Natureza e Educação Ambiental para 27 e 28 de Abril, em Arcos de Valdevez; perante o anúncio destas jornadas de propaganda da caça, teremos de repensar o programa do nosso evento e usá-lo para um adequado esclarecimento sobre a caça no Parque Nacional.
 
Porto, 28 de Março de 2019
A Direção Nacional
 
Para mais informações, contactar:
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Nuno Gomes Oliveira (917 888 272)
Miguel Dantas da Gama (934 058 433)

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